Notícias
Mercado de seguros reage ao aumento de roubos de veículos
mercado - 05/10/2017
A explosão no número de veículos roubados este ano no estado — só em agosto houve um aumento de 51,6%, em comparação com o mesmo mês de 2016, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP) — está levando seguradoras a recusar clientes ou aumentar consideravelmente o valor do contrato, a ponto de o proprietário do automóvel desistir de fechar negócio.
De acordo com o diretor-executivo da Federação Nacional de Seguros Gerais (FenSeg), Julio Cesar Rosa, companhias do setor deixaram de trabalhar com pelo menos cinco bairros do Rio: Cavalcanti, Manguinhos, Sampaio, Pavuna e Rocha Miranda. E a negativa para novos contratos se estende a várias localidades da Região Metropolitana que ficam próximas a favelas.
O diretor-executivo da FenSeg também informa que as empresas passaram a considerar um outro dado na hora de calcular o preço da apólice: além do endereço da residência ou do trabalho, agora avaliam os caminhos mais percorridos pelo motorista. Dependendo do trajeto, a conta pode subir 15%. Ou seja, morar em área nobre não é garantia de contrato fechado. Se, por exemplo, o interessado vive no Leblon e costuma ir todos os dias de carro para a região do Méier, o percurso pode encarecer muito o seguro, por cruzar áreas com grande ocorrência de assaltos.
Os 4.613 veículos roubados em agosto no estado — 1.572 a mais que no mesmo mês do ano passado — ligaram o sinal de alerta no mercado de seguros. Julio Cesar afirma que, se os números permanecerem em alta, o reajuste dos contratos corre o risco de chegar a 22% até dezembro, o que afetaria de maneira significativa a atuação das companhias do setor no Rio de Janeiro.
— Se a estatística de roubo não cair, pode crescer a negativa (de aceitar o cliente) e haver um aumento considerável no valor do seguro, algo que não seria bom para ninguém. Infelizmente, as expectativas não são boas, os roubos continuam. A verdade é que a área de segurança do estado vem tendo dificuldade para atacar a bandidagem — critica Julio Cesar.
TRAJETO AUMENTA CONTA
Coordenador da Escola Nacional de Seguros e dono de um corretora, José Varanda diz que a pesquisa dos trajetos mais percorridos pelo cliente para o cálculo da apólice retrata o clima de insegurança do Rio.
— O aumento contínuo nas estatísticas de roubos de veículos tem obrigado as companhias a se tornarem ainda mais criteriosas na hora de avaliar os riscos. Hoje, as empresas não estão preocupadas apenas em saber o CEP da residência e do trabalho do cliente, o percurso passou a ter o mesmo peso desses endereços — afirma Varanda. — Vizinhos com um mesmo perfil, com um veículo de modelo igual ou semelhante, mas que transitam por regiões diferentes no dia a dia, hoje pagam valores distintos na hora de contratar um seguro para o carro. A diferença pode variar de 10% a 15%.
Segundo o coordenador da Escola Nacional de Seguros, apólices para veículos que transitam pelo município de São Gonçalo e pelo Lins, entre outros bairros da Zona Norte do Rio, já apresentam uma crítica relação custo-benefício. Motoristas que moram, circulam ou trabalham em Olaria e na Penha também estariam enfrentando dificuldade para renovar contratos, devido à proximidade com o Complexo do Alemão.
Ainda de acordo com José Varanda, uma grande companhia deixou recentemente o mercado fluminense por causa dos altos números de sinistros. Quem continua trabalhando no estado, afirma o especialista, investe cada vez mais em sofisticadas formas de cálculo de riscos.
— Há casos de interessados em apólices de seguro que, para não pagarem mais ou terem propostas recusadas, fornecem o CEP de um parente ou de uma casa de veraneio. Para evitar essas fraudes, as companhias vêm pesquisando mesmo os hábitos dos motoristas, detalhando ao máximo a rotina de cada um. Uma tendência que se consolida no mercado é o uso de telemetria, tecnologia que permite o monitoramento de distâncias percorridas e fornece informações para o operador.
Dos 4.613 roubos de veículos ocorridos em agosto no Rio, 1.869 — 40.51% — ocorreram em áreas de dez das 138 delegacias de todo o Rio. A Baixada Fluminense é considerada a região de maior risco, com 19,64% dos casos (906). No topo da lista das unidades policiais que mais fizeram registros está a 64ª DP (São João de Meriti), com 312 boletins. A 59ª DP (Caxias) aparece na segunda colocação, com 257, seguida da 54ª DP (Belford Roxo), com 201.
Uma delegacia da cidade do Rio, a 34ª DP (Bangu), ocupa a quarta posição, com 185 registros. A 74ª DP (Alcântara) totalizou 176; a 40ª DP (Honório Gurgel), 161; e a 39ª DP (Pavuna), 155. Além de Alcântara, duas delegacias de São Gonçalo estão no ranking: a 72ª DP (Centro), com 148 ocorrências, e a 73ª DP (Neves), com 138. A 58ª DP (Posse) também chama a atenção, com 133 roubos de veículos.
Considerando todos os estados brasileiros, as seguradoras que atuam no Rio de Janeiro são as que mais pagam indenizações, de acordo com dados da FenSeg. O primeiro lugar no ranking do país se deve, de acordo com a federação, às estatísticas de roubos de carros. Na segunda posição está o Rio Grande do Sul.
De janeiro a agosto deste ano, segundo a FenSeg, as empresas desembolsaram no Rio 77% do total gasto com indenizações: R$ 1,4 bilhão. Para equilibrar a conta, seguradoras estão repassando a conta aos clientes. Proprietária de um Renault Sandero, a publicitária Karine Eckhardt, moradora de Niterói, sentiu esse impacto quando foi renovar a apólice de seu carro, em abril. O valor subiu R$ 300 em comparação com o preço cobrado em 2016.
— Eu pensei que fosse diminuir, já que o carro desvalorizou, sem contar que não acionei a seguradora em nenhum momento ao longo de um ano — contou Karine, que, ao decidir trocar o carro por um mais novo, acabou tomando um susto — o preço da apólice aumentou mil reais. E, na hora de assinar, subiu mais R$ 100, porque tive de incluir o percurso que faço de casa para o trabalho.
Fonte: O Globo

